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Querido Papa Francisco

Nunca dispusemos de tantas informações sobre uma pandemia como agora, mas será que sabemos usá-las?




O ano de 2020 se revelou assustador para a humanidade com o surgimento da pandemia da COVID-19, ocasionando um desejo em comum: a chegada rápida de 2021 para que nos livrássemos daquele que ficou marcado como o ano do caos. Neste ano, no entanto, um cenário ainda mais drástico se desenha, especialmente no Brasil, onde mais de 350 mil vidas já foram interrompidas pelo novo coronavírus. Por outro lado, tal panorama não se apresenta tão surpreendente assim, ao considerarmos a irresponsabilidade de muitas autoridades governamentais e de uma parte da população, que se recusa a seguir as restrições sanitárias para combater a propagação do vírus.

Se, em 2020, muitos se assustavam com as centenas de mortes diárias ocasionadas pela COVID-19, já não parece acontecer o mesmo neste ano de 2021, quando a média diária atual de mortes ultrapassou três mil. Uma explosão informacional e imagética nos rodeia a cada instante com dados sobre o aumento de óbitos e contaminações, sistema de saúde em colapso, entre outras questões. Todavia, acompanhamos registros que parecem pertencer a uma espécie de Brasil paralelo, com festas clandestinas, pessoas sem máscara, uso de medicamentos por conta própria etc.


Somos, então, levados a nos questionar sobre como o bombardeamento midiático está causando um efeito inverso naqueles que se tornaram indiferentes às informações publicadas diariamente, cuja repetição parece aniquilar qualquer resquício de comoção (se é que ele existe) em quem descumpre restrições e / ou simplesmente nega a pandemia. O que leva a tal comportamento? Algo interessante para pensarmos, principalmente porque o Brasil nunca enfrentara uma pandemia, provido de tantos recursos midiáticos, com alcance tão amplo em período tão curto – algo possível especialmente com a popularização da internet nos anos 90 – para nos informar sobre a gravidade da situação. Podemos, inclusive, regressar um pouco no tempo para analisar outros dois períodos bem atípicos: 1918 e 1974.


Entre os anos de 1918 e 1920, o mundo enfrentava a pandemia de Gripe Espanhola que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), causou mais de 50 milhões de óbitos no planeta. No Brasil, de acordo com dados do IBGE, estima-se que a doença tenha deixado um saldo de 35 mil mortos em uma época que o país possuía 30 milhões de habitantes (hoje ele possui mais de 200 milhões). Ainda assim, considerando o total de mortos, mundialmente, e a gravidade da doença, é possível que um número muito maior de brasileiros tenha morrido, já que o país não possuía dos recursos que possui hoje para mensuração dos dados.


Além disso, a informação se propagava em um ritmo muito mais lento, dificultando o acesso populacional ao panorama real da pandemia. Não nos esqueçamos de que, naquela época, o povo não dispunha de um veículo midiático que se direcionasse a todos, simultaneamente. Algo que só aconteceria alguns anos depois, em 7 de setembro de 1922, data da primeira transmissão de rádio no Brasil.


Já em 1974, nossa nação é assolada por outra doença: um surto de meningite meningocócica, que provocou outro colapso na saúde brasileira. Embora muitos já dispusessem de meios que se direcionavam a uma grande parcela da população, como o rádio e a TV, o país estava sob um regime militar (1964 – 1985). Na época, diante do caos instaurado, os governantes proibiram os veículos comunicacionais de informar os cidadãos sobre a doença, algo que seria permitido apenas no ano seguinte, 1975, com o início da Campanha da Vacinação.

Ao analisarmos esses dois períodos, portanto, e compará-los com a situação atual, percebemos como estamos muito mais munidos de meios informacionais do que antes. Cenário perceptível, especialmente, pela rápida propagação de conteúdos postados e compartilhados nos espaços virtuais, que se refletiu drasticamente na mudança comportamental dos receptores midiáticos, que também se tornaram emissores. Se o rádio e a TV se dirigiam a uma massa, ou ainda, a grupos de espectadores, a internet, com destaque para as redes sociais, passou a se dirigir para cada internauta, individualmente. Este, por sua vez, escolhe o que deseja acessar nesse imenso oceano digital.


Assim, temos um paradoxo, se considerarmos que determinados indivíduos acessarão apenas aquilo que seja condizente com suas ideias, simplesmente ignorando todo o aparato informacional externo ao seu mundo. Logo percebemos que, no caso desses internautas, quanto mais recursos possuem, menos conseguem usá-los adequadamente, por se recusarem a enxergar o todo, já que não distanciaram o olhar de suas realidades.


Quanto às notícias sobre a pandemia, o veredito já foi dado por essa parcela da população, que, independentemente da realidade anunciada, absorve apenas aquilo que seja coerente com seus desejos e crenças. De nada adiantará, portanto, toda a informação gerada instantaneamente graças à inovação comunicacional. Assim, observando nossa história, suas inovações e o uso que o ser humano faz dela, nos questionamos: será que estamos mesmo avançando?


Texto escrito por Mariana Mascarenhas (Assessora de Comunicação da Rede Concepcionista de Ensino) e publicado no portal A12


Querido pontífice, a partir de tudo isso e considerando as propostas mensais da Agenda Concepcionista, eu me questiono sobre como fazer bom uso dos meios comunicacionais para ajudar no combate à pandemia, exercitando a empatia, a convivência harmônica e o respeito à diversidade. Uma reflexão para todos nós!

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