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Nunca estamos sozinhos

A aluna Camili Baldessini do 2º ano do ensino médio, do CIC-MACHADO, escreveu uma linda carta com palavras de conforto e acolhida a todos que se sentirem deslocados




A todos aqueles que se sentirem deslocados em um mundo demasiadamente cruel,


Escrevo esta carta buscando compreendê-los mais do que todos compreendem. Há maldade na sociedade, entre os homens. Há morte, preconceito e exclusão, uma tríade que transforma todos os laços humanos em laços vulneráveis, que afasta os indivíduos e os transforma em máquinas de um sistema. O problema é que fomos máquinas por tempo suficiente. Fomos parte de um sistema estilhaçado por tempo suficiente. E agora, é o momento de mudança.


O preconceito, a aversão e a desumanidade desenvolveram moldes incompatíveis com tudo aquilo que somos e restringiram nossas características. Somos parte de algo maior e, consequentemente, devemos agir como algo maior, um soldado preparado para a batalha chamada vida. Mas nem todos são soldados e, de fato, nem todos estão preparados. O ideal de igualdade destruiu as minúcias individuais, tornando a sociedade cruel. Cruel por não aceitar o diferente, cruel por não ouvir nossas histórias pessoais, cruel por aguardar coisas que nem sempre somos capazes de concluir ou alcançar e cruel por definir o utópico unânime.


Estamos cansados e correndo atrás de valores que não nos pertencem, permitindo que sejamos destruídos no processo. Mas, mesmo sob esse contexto, há algo capaz de nos salvar: a pluralidade do ser.


Somos plurais por nascença, ainda que tudo nos diga o contrário. Possuímos nossas próprias características, nossas próprias opiniões, nossos próprios desejos e nossos próprios sonhos, portanto, ser mais individual do que coletivo não nos transforma em monstros. Possuir minúcias incompatíveis com o padrão não nos torna piores ou melhores; apenas diferentes, apenas únicos, apenas mais fortes. A acolhida é interna e externa, em todas as situações. Ainda que o mundo colapse, há pessoas, momentos, lugares e esperanças em que se segurar, se manter resistente. Por isso, essa carta é endereçada a todos esses indivíduos: todos aqueles que necessitam de se sentir amados, respeitados, acolhidos.


Durante momentos de destruição, tais como a pandemia da covid-19, especialmente para adolescentes que cursam o Ensino Médio e buscam a aprovação na universidade, o vazio transparece. Somos o quê? Somos por quê? Somos inconstâncias que se desfazem pouco a pouco, tentando sobreviver. É nesses momentos de sobrevivência, nos quais nos vemos diante de obstáculos, que somos acolhidos, que devemos nos sentir acolhidos. Mesmo com nossas diferenças, mesmo com nossos erros, mesmo com nossas falhas, fracassos, desistências. Somos acolhidos pelas escolas, pelos professores, pelas famílias, pelos amigos, pelos relacionamentos, pela igreja, pela fé e pelos fiéis. Acolhidos por Deus e pelo divino que nos salva e nos mantém resistentes. Somos acolhidos pelo amor, pela audácia, pelo desejo, pela compaixão e pela empatia. E, se se sentir sozinho em um campo massacrado, mesmo entre tantas acolhidas, saiba que os acolho. Acolho-os aqui, com as palavras gentis e sinceras que lhes trago, aguardando cooperação.


Há pessoas lá fora que acreditam em vocês e há muito do mundo para conhecer. Não estamos sozinhos, porque somos sociais. Não estamos sozinhos, porque vivemos em um campo vasto de uma natureza exuberante, com vida crepitando em todos os locais. Não estamos sozinhos, porque há estrelas acima de nós, estrelas que nos ouvem e que um dia responderão aos nossos sonhos. Não estamos sozinhos porque somos parte de um projeto maior.


Que a vida não nos tome aquilo que temos de mais sagrado: o desejo. Que esse desejo possa levá-los adiante, para objetivos e locais maiores e que, com o tempo, o acolhimento lhe faça estadia. Que sejamos mais fortes, mais preparados, mais crentes, mais determinados e mais resistentes, em uma sobrevivência em que espalhemos amor e compaixão. Eu desejo que a solidão se transforme em acalento, e que, mesmo diante das dificuldades, você saiba como sobreviver e continuar tentando. Porque isso é o que a palavra “humano” verdadeiramente significa: sobreviver.


Que esta carta represente um passo para sua sobrevivência, mesmo em momentos sombrios, e que você possa reconhecer a luz em meio à escuridão, pois, sem ela, as estrelas não brilhariam. Essa carta é destinada a você, que se sente perdido; a você, que se sente sozinho; a você, que perdeu as esperanças em momentos difíceis; a você, que desistiu de sonhar. Sinta-se acolhido, pois ainda há muitas pessoas que acreditam em você. Ainda há muito para conhecer e concretizar, mesmo em um caminho pedregoso. Estou com você, todos estamos.


Acolhemos sua dor, seu amor, sua ousadia e seus sonhos, para que se concretizem em sua caminhada para o crescimento. Em momentos obscuros, obtemos um maior ensinamento: é preciso continuar caminhando, olhando para as estrelas e sonhando e, aos poucos, com sua perseverança, as estrelas o ouvirão. Um acolhimento para todos aqueles que precisarem.


Com carinho e amor,


Camili Baldessini

Aluna do 2° ano do ensino médio

Colégio Imaculada Conceição

Machado - MG

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